segunda-feira, 12 de maio de 2014

associação livre.7.

Queria ir embora com a facilidade que as pessoas têm de abandonar.

Pegar uma mochila, um amontoado de roupas não escolhidas previamente,  dois pares de havaianas,  os poucos trocados que ainda me restam, e fugir.

Sem olhar pra trás,  tampouco me importar com a dor de terceiros. É exatamente assim que funciona,  não é?

Abrir o mundo pra alguém entrar, levar algumas metralhadas e morrer exposta. Sangrando.

Sozinha.

[Nota mental: evitar a nudez da alma.]

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

associação livre.6

o tempo passa. quem dirá os corpos.

hoje ela acordou triste.
ontem ele foi dormir com raiva.

ele percebeu.
ela perguntou.

nenhum dos dois falou.

ele não gosta do passado.
ela não lida com o presente.

ambos almejam um futuro. juntos.

ela ofende com palavras.
ele fere com atitudes.

os dois se machucam.

mulhermeninagarotohomemtransformam-seemumcasalquesódesejamor.

lágrimas.

domingo, 5 de janeiro de 2014

acostum.ar.

eu olho pro lado e já não te encontro mais.
o relógio completa às 15hs00 e da minha sala, só vejo os prédios e suas janelas que dão pra avenida principal do bairro.
esse bairro tão distante do seu.

as horas passam e você não passa. não mais. tento, então, não sentar mais de frente para a porta, pra não criar qualquer expectativa.
tenho caixas de elásticos lacradas e não pretendo usá-las. meus ventiladores quebraram e meu computador mal cobre 1/4 do meu rosto.
e não faz a menor diferença. meu rosto descoberto não precisa esconder os olhares discretos que miravam o corredor estreito.

os 50 metros se tornaram 28 quilômetros. esporádicos. intermináveis. e os sorrisos constantes parecem árduos.
aquele meu desejo de criança, de voar como um passarinho, ou segurar milhares de balões só pra sair um pouco do chão, tornou-se uma constante. porque, se eu voasse, chegaria mais fácil até você.

de aniversário, então, peço asas.
e, no aguardo, meus sonhos diariamente te encontram.

(te amo)

domingo, 15 de setembro de 2013

você.

eu gosto do jeito que você me olha. e me olhou da primeira vez que me viu.
gosto de lembrar da novidade de te encontrar depois de tanto dia longe do ninho. da surpresa da novidade que você trouxe. gosto de pensar na rapidez do que senti. do receio da sua aproximação desde o início e da porta que abri.

eu gosto do seu sorriso. dos seus dentes branquinhos que contrastam com a sua pele. gosto do corte do seu cabelo. do jeito que você arruma os fios pra ficarem desarrumados. dos seus óculos aviadores. e seus olhinhos perdidos nas lentes grandes.

os seus olhos. gosto da profundidade deles. principalmente quando olham pros meus. e a tentativa que eles fazem de lerem a minha alma. você esporadicamente olha pra dentro de mim e se perde. e, então, quando eu vejo, estamos perdidos. juntos.

gosto do seu jeito malandro do corpo pra fora. e da sua pureza da pele pra dentro. gosto de quando você tenta encostar em mim. e de quando encosta. dos seus dedos desbravando os meus cabelos. dos seus abraços rápidos, mas verdadeiros.

gosto da sua leveza. e do jeito que você me leva. porque, quando eu vejo, já fui embora contigo. gosto do medo que você me causa. e, ao mesmo tempo, da certeza que você transpassa. gosto de esquecer da nossa idade. e de, quando lembro, abstrair a cronologia.

gosto do jeito que você se aproxima quando quer me beijar. do tempo que demora, como se fosse a primeira vez. e do jeito que para na minha frente, me prendendo no seu corpo. como se não houvesse qualquer saída de emergência. e como, mesmo se houvesse, tivesse a certeza de que não vou embora.

gosto do seu coração acelerado quando me abraça. e da delicadeza quando me beija. e de alguns tremores que dá como se estivesse nervoso. do jeito que me agarra, pra eu nunca mais ir embora. e de quando diz que me ama. sem precisar dizer mais nada.

e, gostando inesgotavelmente,
sem tempo, espaço e lógica,
desbravando o novo...

fico.
amando.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

(breve)associação livre.5.

nosso coração é exatamente como uma caixa de surpresas.

tanta coisa guardada, querendo gritar. e a gente esquece. por alguns momentos, durante a vida, a gente simplesmente esquece de usar essas pequenas coisas que fazem, do coração, um turbilhão de sentimentos. 

e, então, quando abrimos a caixa, nos deparamos com sombras imprevisíveis. significantes. ressignificadas. novas. antigas. misturadas. 

olhar. 
pavor. 
borboletas.

medo do que está por vir. mas vem. 
estou pronta. 


domingo, 27 de janeiro de 2013

associação livre.4.

uma tragédia acontece e, então, nos deparamos com as mais diversas reações HUMANAS.
algumas pessoas repensam a própria vida, após se deparar com a morte de tantas almas jovens, ansiando pela eternidade. outras choram como se as perdas fossem diretamente ligadas a elas. outros apenas são indiferentes.
 
o que eu realmente não costumo esperar é a banalização frente a dor alheia.
 
olhei por curiosidade a primeira lista divulgada pela imprensa, de 133 pessoas mortas pela fumaça na boate em Santa Maria. dentre elas, duas irmãs. pensei nos pais das duas meninas, tão jovens e belíssimas. uma acabara de entrar na Universidade Federal de Santa Maria. parecia feliz.
 
não repenso minha vida. não acho que minhas dores são pequenas perto das dores dos familiares dessas vítimas. consigo distinguir as coisas e valorizar o meu 'eu'. o que não me faz melhor ou pior do que ninguém. fico penalizada. me coloco no lugar. desejo calma e alguns analgésicos espitiruais para amenizar a dor, que será longa. me arrepio em alguns momentos, como se fossem próximos a mim.
 
e tento novamente compreender alguns comportamentos tão pequenos e sádicos. comuns, inclusive. isso tem me arrepiado mais do que a própria tragédia. afinal, uma morte ou 133 tem o mesmo significado para mim. perda e dor.
o que não compreendo, mesmo com grande esforço, é a ausência de compaixão e o excesso de frieza de muitas pessoas, as quais, além de não sentirem, fazem questão de satirizar em redes sociais.
 
penso então em uma única palavra: solidão.
passo a me sentir sozinha dentro de um mundo grotescamente nojento e mau. não sinto vontade - o que é ainda pior - de participar dessa humanidade ironicamente tão desumana.
desejei que o mundo realmente acabasse. seria um tanto interessante observar o desespero das pessoas e uma solicitação divina de perdão. em vão.
não há divindade que salve a sujeira do mundo. quem dera nosso Deus - essa força maravilhosa - pudesse com um simples movimento salvar a própria criação. como deve doer, caso seja ele uma pessoa.
 
como dói a mim ser fisicamente tão semelhante, e tão espiritualmente diferente. repito: não é ser melhor ou pior que ninguém.
é ser diferente de.
todos.
 
fechei a lista das vítimas. desejei força e luz para os familiares.
e desisti do resto do mundo.

desabamadrugada.

você passa a vida inteira priorizando os outros ouvindo acolhendo aconselhando sem ter muito quem te ouvir quando a dor é sua o outro se ocupa preenche a brecha de tempo onde você poderia entrar você psicologiza um pouco esse comportamento justifica compreende abstrai subtrai prioriza mais alguns começa a conversar com as teclas do computador espelhos cadernos sonhos qualquer forma de auto-compreensão um pouco em vão você descobre com o tempo é um pedido de abraço e de ouvidos e de respeito e de sinceridade que você vê sumindo no meio de tanto tumulto de um lugar tão estranho e quando finalmente você resolve se colocar cautelosamente em primeiro lugar o mundo te aponta e te culpa logo você também se culpa de tentar depois de tanto tempo e tanta solidão lembrar da alma tão sufocada que não consegue gritar dentro de você no meio de tanta gente nunca se sentiu tão sozinha

(respira)

me.